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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

MPF DIZ QUE GLOBO E CLUBE DOS TREZE PRATICAM CARTEL

MPF diz que TV Globo e Clube dos 13 praticam cartel

Jorge Seadi

O Ministério Público Federal (MPF), consultado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), deu parecer de que a TV Globo e o Clube dos 13 praticam “cartel” na negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. O processo tramita no CADE desde 1997 e cita o SBT que não participou das negociações de direitos nas duas últimas rodadas. Agora, o CADE pode recolocar o tema em pauta e pode definir multa aos clubes e à TV até o final deste ano. O ponto principal, segundo o MPF, é a cláusula de preferência que dá à Rede Globo o direito de igualar a proposta da concorrência e, assim, renovar o contrato. Com esta cláusula, a Globo impediu que as outras emissoras tivessem condições de transmitir o campeonato. Na última negociação, por exemplo, este item impediu que a Rede Record comprasse os direitos do Brasileirão. Para Marcus da Penha, procurador regional da República e representante do Ministério Público Federal no CADE, “o sistema é ilegal”. E acrecentou que “o Clube dos 13 e a Globo limitaram e prejudicaram a livre concorrência”.

A próxima negociação dos direitos de TV do Campeonato Brasileiro está marcada para o começo do próximo ano. O presidente do Clube dos 13, Fábio Koff, já adiantou que não quer que a Rede Globo mantenha a exclusividade dos contratos. Disse também que pretende dividir os direitos de transmissão. E deseja que a transmissão seja aberta para todas as plataformas como TV aberta, TV fechada, pay per view, celular e internet.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

FUTEBOL, UM ESPORTE VENDIDO À TV

Da Carta Maior


Futebol, um esporte vendido à TV

Na mesma semana da estreia do Brasil, os vereadores de São Paulo deram uma guinada espetacular e mantiveram o veto do prefeito Kassab à lei, por eles mesmos aprovada, que proibia jogos de futebol na cidade com início depois das 21h15.

Enquanto a Copa segue hegemônica nos noticiários de TV, o silêncio cobre outros fatos importantes ligados ao futebol. Na mesma semana da estreia do Brasil, os vereadores de São Paulo deram uma guinada espetacular e mantiveram o veto do prefeito Kassab à lei, por eles mesmos aprovada, que proibia jogos de futebol na cidade com início depois das 21h15.

Quem marca o horário dos jogos noturnos para às 21h50 são os programadores da Rede Globo. Para eles o futebol é apenas mais um programa da emissora que, por critérios mercadológicos, deve ser transmitido depois da novela.

Em abril, com 43 votos a favor e apenas dois contra a lei aprovada passava a impressão de altivez da Câmara, fato raro na vida política do município. Foi só impressão. Ao invés de manterem seus votos e derrubarem o veto do prefeito, os vereadores paulistanos, com quatro honrosas exceções, curvaram-se aos interesses da Globo. Até um dos autores do projeto, vereador Antonio Goulart, mudou de lado. O outro, Agnaldo Timóteo não apareceu para votar.

E assim os jogos na capital continuam terminando quase à meia-noite. Até pela TV, para quem tem que trabalhar cedo no dia seguinte, como faz a maioria da população, o horário é ruim. Agora para quem gosta de ir ao estádio é um sacrifício desumano.

Os vereadores paulistanos não se dobraram apenas aos interesses da Rede Globo. Eles passaram um atestado de incapacidade absoluta para enfrentar um modelo perverso imposto nas últimas décadas ao futebol brasileiro.

Até o final dos anos 1960 ainda havia algo de lúdico na prática e no espetáculo futebolístico. Lembro do Torneio Início, jogado uma semana antes da abertura do campeonato paulista, num dia só, com a participação de todos os clubes da primeira divisão. Eram jogos mata-mata, de 30 minutos (15 por 15) de duração onde, em caso de empate, ganhava o time que havia obtido mais escanteios a favor, antes da disputa dos pênaltis se fosse necessária.

Curioso era ver os maiores craques do futebol paulista, em volta do gramado, assistindo os jogos dos outros times enquanto esperavam a vez de entrar em campo. Havia um que de amadorismo resistindo às investidas da profissionalização definitiva. O Pacaembu ainda era, nessa época, uma extensão glamorosa dos campos de várzea que se espalhavam por toda a cidade.

A especulação imobiliária nunca contida pelos vereadores paulistanos – em qualquer legislatura – acabou com a várzea e quase acaba com o futebol na cidade. A sua sobrevivência se deu num outro nível, o da mercantilização absoluta. Dos jogadores e do jogo.

Os primeiros passaram a ser formados pelas escolinhas, acessíveis apenas à classe média, ou pelos centros de adestramento criados por empresários cujo objetivo é preparar os seus “produtos” para vendê-los no exterior.

O futebol assume nesse estágio a forma mercadoria em todas as suas etapas. Do berço do jogador à Copa do Mundo nada escapa. O esporte popular das ruas e das várzeas transformou-se num produto caro e altamente sofisticado, operando num nível elevadíssimo de racionalidade capitalista.

Diferente de outros setores da economia e mesmo da cultura, onde o Estado ainda atua para conter de alguma forma a voracidade do mercado, no futebol isso não acontece. Os objetivos privados são absolutos nem que para serem alcançados sacrifiquem-se atletas, torcedores e, no limite o próprio esporte, reduzido cada vez mais a um espetáculo de televisão.

Perderam os vereadores paulistanos a grande oportunidade de colocar o interesse público em primeiro lugar. Resta agora esperar, com bastante ceticismo, que projeto semelhante, apresentado na Câmara dos Deputados, e válido para todo o Brasil, prospere.


Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).